Herança do açúcar e poder político: acusações da ditadura voltam a atingir famílias tradicionais da PB
Uma ação civil pública apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) trouxe à tona um dos capítulos mais brutais da repressão política no Nordeste durante a ditadura militar. Segundo a denúncia protocolada na Justiça Federal da Paraíba, corpos de camponeses ligados às Ligas Camponesas teriam sido queimados em fornalhas de usinas de açúcar para eliminar vestígios dos assassinatos cometidos por agentes do Estado e milícias privadas ligadas a latifundiários da região.
A ação, revelada em reportagem do jornalista Carlos Madeiro, do UOL, acusa a União e o Estado da Paraíba de participação sistemática na perseguição, prisão, tortura e desaparecimento de trabalhadores rurais organizados politicamente nos anos 1960.
De acordo com o MPF, militares do Exército e policiais militares atuavam em conjunto com usineiros e proprietários de terra da Zona da Mata paraibana em operações de repressão contra líderes camponeses que reivindicavam reforma agrária e melhores condições de vida no campo.
O documento afirma que há “testemunhos convergentes” indicando que vítimas foram levadas para usinas açucareiras da região, executadas e posteriormente incineradas em grandes fornalhas industriais utilizadas na produção de açúcar.
A denúncia aponta que essa estrutura de violência fazia parte de um “consórcio repressivo” financiado por grupos econômicos ligados ao setor canavieiro.
Primeiros desaparecidos políticos da ditadura
Entre os casos citados pelo MPF estão os de João Alfredo Dias, conhecido como Nego Fuba, e Pedro Inácio de Araújo, chamado de Pedro Fazendeiro. Ambos eram lideranças das Ligas Camponesas e desapareceram em 1964 após serem entregues a policiais em uma suposta “soltura simulada”.
Os dois nunca mais foram vistos.
A Comissão Nacional da Verdade reconheceu João Alfredo e Pedro Inácio como os primeiros desaparecidos políticos oficiais da ditadura militar brasileira.
Segundo a investigação, os camponeses eram submetidos a métodos extremos de tortura. Entre eles, o chamado “enchocalhamento”, em que vítimas eram obrigadas a correr usando chocalhos de gado sob chicotadas, e o “cabocó”, técnica que consistia em manter trabalhadores mergulhados em tanques de água por vários dias.
Milícias rurais e ligação com latifundiários
A ação cita a atuação do chamado “Grupo da Várzea”, organização formada por grandes proprietários de terra da Paraíba e apontada pelo MPF como financiadora de milícias privadas que atuavam contra trabalhadores rurais.
Entre os nomes mencionados estão os latifundiários Ribeiro Coutinho e Veloso Borges. Este último é apontado pelo MPF como bisavô do atual vice-governador da Paraíba, Lucas Ribeiro (PP).
A reportagem destaca que, antes mesmo do golpe militar de 1964, essas milícias já atuavam na região. Um dos episódios citados é a chamada “Chacina de Mari”, ocorrida em janeiro daquele ano, quando 11 pessoas foram assassinadas em uma ação atribuída a policiais e capangas ligados a usineiros.
Após o golpe, segundo o MPF, as milícias passaram a atuar de forma coordenada com o 15º Regimento de Infantaria do Exército.
O documento também menciona o general Ednardo D’Ávila Mello, comandante militar da época, acusado de comandar operações de intimidação e repressão nas áreas ocupadas pelas Ligas Camponesas.
Décadas depois, Ednardo ficou nacionalmente conhecido por chefiar o DOI-Codi de São Paulo durante o período das mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho.
O que o MPF pede
A ação protocolada pelo Ministério Público Federal pede uma série de medidas de reparação histórica e responsabilização institucional.
Entre elas estão:
- pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos ao Memorial das Ligas e Lutas Camponesas de Sapé;
- pedido oficial de desculpas do Estado brasileiro;
- criação de uma Comissão Estadual da Verdade Camponesa;
- busca e identificação dos restos mortais das vítimas desaparecidas;
- preservação e sinalização de locais históricos ligados à repressão;
- inclusão da história das Ligas Camponesas no currículo escolar da Paraíba;
- investigação sobre homenagens públicas feitas a agentes envolvidos na repressão.
O MPF também pede que a União torne públicos todos os documentos relacionados às operações realizadas pelo Exército entre 1964 e 1985 na Paraíba.
Memória e impunidade
Mais de seis décadas após o golpe militar, a denúncia reacende discussões sobre o papel das elites agrárias nordestinas na sustentação da repressão política no campo.
Historiadores apontam que a Paraíba foi um dos estados onde o conflito fundiário assumiu contornos mais violentos durante o período pré-golpe, especialmente pela força das Ligas Camponesas organizadas em municípios ligados ao ciclo da cana-de-açúcar.
Na primeira metade dos anos 1960, o movimento chegou a reunir cerca de 40 mil trabalhadores rurais no estado.
Para especialistas em direitos humanos, o caso representa um avanço importante no reconhecimento da violência cometida contra populações camponesas durante a ditadura — um tema historicamente menos investigado do que a perseguição urbana a estudantes, jornalistas e militantes políticos.
A ação ainda aguarda análise da Justiça Federal.
Com UOL



Publicar comentário