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Nomeações, alinhamentos e bastidores: a cronologia política que colocou a pauta animal no centro das articulações na Paraíba – Por Márcio Serafim

Nomeações, alinhamentos e bastidores: a cronologia política que colocou a pauta animal no centro das articulações na Paraíba – Por Márcio Serafim

A Bíblia registra que Judas Iscariotes traiu Jesus Cristo por 30 moedas de prata, conforme relata o Evangelho de Mateus (26:15). Na política, porém, traições não são medidas em moedas, mas em cargos, alianças e reposicionamentos estratégicos. E é exatamente essa leitura que tem sido feita por críticos e observadores atentos da cena política paraibana diante dos acontecimentos recentes envolvendo o vereador Guga Pet (PP), o prefeito Cícero Lucena (MDB) e o governador João Azevêdo (PSB).

No último dia 12, o prefeito de João Pessoa nomeou Carlos Ítalo Suassuna de Oliveira como novo secretário municipal de Cuidado e Proteção Animal. A decisão foi oficializada por meio de portaria publicada no Diário Oficial do Município, com efeito retroativo ao dia 9, e rapidamente ganhou repercussão nos bastidores políticos da Capital.

Ítalo assume o cargo deixado pelo próprio pai, o vereador Guga Pet, que havia se afastado da secretaria em outubro do ano passado para reassumir o mandato na Câmara Municipal. Embora o discurso oficial tenha destacado critérios técnicos, a nomeação foi interpretada por aliados e adversários como um movimento político em meio a um momento delicado da relação entre o prefeito Cícero Lucena e o Partido Progressistas (PP).

Com passagem pela Secretaria de Meio Ambiente (Semam), onde atuou como coordenador de Políticas de Bem-Estar Animal e Ambiental, Ítalo é conhecido na militância da causa animal e lidera o movimento “Paraíba Contra os Maus-Tratos”. À época, declarou que sua atuação à frente da pasta seria independente da trajetória política do pai.

Mudança de rota política

No dia seguinte à nomeação, porém, o cenário ganhou novos contornos. O vereador Guga Pet anunciou publicamente apoio ao vice-governador Lucas Ribeiro (PP), pré-candidato ao Governo do Estado, e ao governador João Azevêdo (PSB), que disputa uma vaga no Senado em 2026.

Em nota enviada à imprensa, Guga afirmou que o convite feito pelo prefeito Cícero Lucena para que seu filho assumisse a secretaria estaria condicionado ao seu afastamento do Partido Progressistas para disputar as eleições por outra legenda. Segundo o vereador, essa condição levou o grupo político a reavaliar sua posição.

“Decidimos, de forma unânime, permanecer no Partido Progressista”, afirmou, oficializando o alinhamento com o projeto político do PP e do PSB para 2026.

Apesar da mudança de posicionamento, o parlamentar fez questão de agradecer publicamente ao prefeito Cícero Lucena e ao vice-prefeito Leo Bezerra, afirmando manter respeito institucional por ambos.

Coincidência ou novo capítulo?

A sequência de fatos ganhou ainda mais atenção nesta quarta-feira (28), quando o governador João Azevêdo assinou Medida Provisória criando a Secretaria Executiva da Proteção Animal na Paraíba, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde. A nova pasta terá estrutura robusta, com cargos estratégicos e diversas gerências voltadas à fiscalização, resgate, saúde animal e políticas da causa.

A criação da secretaria, ocorrida poucos dias após a mudança de alinhamento político de Guga Pet, foi vista por críticos como no mínimo curiosa, alimentando questionamentos sobre o real peso das articulações políticas envolvendo a pauta animal no Estado.

Embora não haja anúncio oficial sobre quem comandará a nova secretaria estadual, o encadeamento dos fatos passou a ser explorado por opositores, que questionam se decisões administrativas estariam sendo influenciadas por conveniências políticas e eleitorais.

Leitura política

Do ponto de vista institucional, tanto a nomeação municipal quanto a criação da secretaria estadual estão amparadas pela legalidade. No campo político, porém, a sucessão de movimentos levanta debates legítimos sobre coerência, alinhamento e uso estratégico da pauta animal dentro do jogo de poder para 2026.

O que para uns representa avanço administrativo, para outros soa como reposicionamento calculado. Em política, como se sabe, nem sempre os gestos são isolados — e quase nunca são interpretados como neutros.

O espaço permanece aberto para manifestações dos citados.

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