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Pré-candidatura de Lucas Ribeiro reacende memória da luta camponesa e expõe passado mal resolvido da elite agrária na Paraíba

Pré-candidatura de Lucas Ribeiro reacende memória da luta camponesa e expõe passado mal resolvido da elite agrária na Paraíba

A pré-candidatura do vice-governador Lucas Ribeiro (PP) ao Palácio da Redenção não carrega apenas articulações partidárias da tríplice aliança formada por PP, PSB e Republicanos. Carrega também um peso histórico que muitos prefeririam manter enterrado — mas que insiste em emergir no debate público paraibano.

Nos bastidores políticos, em setores acadêmicos e entre movimentos sociais organizados, cresce a disposição de confrontar essa postulação com episódios que fazem parte da memória viva da luta camponesa na Paraíba. Um passado que não pode ser ignorado quando se pretende governar um estado marcado por conflitos agrários, desigualdade fundiária e violência no campo.

O epicentro dessa história tem nome e endereço: Fazenda Antas.

Fazenda Antas: 64 anos de luta, sangue e resistência

Após 64 anos de conflitos, perseguições, despejos forçados e mortes, a Fazenda Antas foi finalmente destinada à reforma agrária pelo INCRA. A decisão representou uma vitória tardia, porém simbólica, para trabalhadores rurais que reivindicavam apenas o direito básico de plantar, viver e sobreviver com dignidade.

Foi nesse território que germinaram as Ligas Camponesas da Paraíba, movimento que marcou profundamente a história social e política do estado. E foi nesse contexto de enfrentamento entre trabalhadores rurais e grandes proprietários de terra que ocorreu um dos crimes mais emblemáticos do Brasil rural.

O assassinato de João Pedro Teixeira e a memória que não se apaga

Na Fazenda Antas, João Pedro Teixeira, principal líder das Ligas Camponesas na Paraíba, foi brutalmente assassinado. O crime chocou o país e se tornou símbolo da violência estrutural contra trabalhadores do campo.

À época, o nome do latifundiário Agnaldo Veloso Borges, bisavô de Lucas Ribeiro, foi apontado como acusado intelectual do assassinato. Importante ressaltar: não houve condenação judicial. Ainda assim, o episódio permanece registrado em documentos históricos, investigações da época, estudos acadêmicos e na memória coletiva dos movimentos sociais.

A história não se encerra nesse ponto.

Outras acusações históricas e o silêncio da Justiça

Agnaldo Veloso Borges também foi citado, ao longo das décadas, como suspeito em outros episódios trágicos ligados a conflitos agrários, incluindo o assassinato de Margarida Maria Alves, liderança sindical executada na década de 1980, além de outras mortes relacionadas à luta por terra e direitos trabalhistas no campo paraibano.

Novamente, é fundamental destacar: essas acusações nunca resultaram em condenação judicial definitiva. Ainda assim, permanecem como marcas profundas na história política e social da Paraíba — marcas que não desapareceram com o tempo.

Responsabilidade histórica não é culpa hereditária

Lucas Ribeiro, evidentemente, não era nascido à época dos fatos. Tampouco sua mãe, a senadora Daniela Ribeiro. Não se trata, portanto, de imputar culpa hereditária, algo que não encontra respaldo jurídico nem moral.

Mas em política, especialmente quando se disputa o comando de um estado, há responsabilidades que vão além do indivíduo. Existe a responsabilidade histórica. Existe o dever de reconhecer contextos, feridas abertas e dores que atravessam gerações.

E, nesse campo, o silêncio também comunica.

Elizabeth Teixeira: testemunha viva de um Brasil que resiste

Qualquer debate sério sobre esse período da história paraibana passa, inevitavelmente, pela figura de Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro Teixeira. Aos 101 anos, ela segue como símbolo de resistência, memória viva de um dos períodos mais sombrios da luta pela terra no Brasil.

Elizabeth não perdeu apenas o marido. Perdeu filhos. Viveu 17 anos na clandestinidade para escapar da morte. Sua trajetória foi eternizada no documentário “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho — obra reconhecida internacionalmente e referência obrigatória para quem deseja compreender as raízes da questão agrária no Nordeste e na Paraíba.

Ignorar essa história não a apaga. Pelo contrário: a torna ainda mais presente.

Uma candidatura que será confrontada com o passado

A pré-candidatura de Lucas Ribeiro inevitavelmente será confrontada com esse legado histórico. Não por responsabilidade direta, mas por responsabilidade política e moral diante de um estado que ainda convive com conflitos fundiários, desigualdade no acesso à terra e violência no campo.

Não basta construir alianças partidárias. Quem pretende governar a Paraíba precisa dialogar com sua história — inclusive com seus capítulos mais dolorosos.

A pergunta que ecoa entre movimentos sociais, pesquisadores e parte da sociedade civil é simples, direta e inevitável:

Qual será o posicionamento de Lucas Ribeiro sobre a reforma agrária e sobre esse capítulo da história paraibana?

Ignorar o tema pode até parecer conveniente do ponto de vista eleitoral. Mas dificilmente será suficiente.

Porque a terra tem memória.
E a história, quando mal resolvida, costuma cobrar seu preço — inclusive nas urnas.

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