O governo de Donald Trump sinaliza que a presença da China no Brasil é um elemento de preocupação e pode afetar a relação entre Washington e Brasília.
Em reuniões em Washington dentro do governo norte-americano, assim como em diálogos com Brasília, o tema tem surgido com uma força cada vez maior, inclusive por conta de o Brasil presidir neste ano o Brics (grupo de países com economias emergentes).
Na próxima quarta-feira, entram em vigor as tarifas norte-americanas contra o aço de todo o mundo, e o Brasil será um dos principais afetados. Os EUA alegam que os chineses usam o mercado brasileiro como entreposto para seus produtos e que, do Brasil, o aço chinês é depois reenviado aos EUA. Essa prática é conhecida como “triangulação” e tem como objetivo driblar barreiras que possam existir entre a China e o mercado norte-americano.
Assim, Trump alega que precisaria adotar tarifas de 25% para impedir que a China use o Brasil como uma espécie de trampolim para o mercado dos EUA.
O Brasil rejeita a tese. Em estudo realizado pela Amcham, a Câmara de Comércio Brasil-EUA, o argumento da Casa Branca é também rebatido. “O Brasil é o 9º maior produtor mundial de aço, representando 1,8% da produção mundial, e o 8º maior produtor de alumínio primário”, diz o informe.
Segundo a Amcham, o Brasil demonstra claras preocupações com práticas de comércio desleal nas importações de bens desses dois setores, visto que possui 45 medidas de defesa comercial aplicadas contra bens de aço e alumínio (ou 29,4% do total de medidas do país) — 27 delas especificamente aplicadas contra a China.
“Das importações brasileiras provenientes da China do setor de aço, 78,4% são produtos laminados de ferro e aço. Por outro lado, as vendas de produtos de aço do Brasil para os EUA são de aço semiacabado (76,3%). Desta forma, dado o nível de agregação de valor dos produtos comercializados entre Brasil e China e Brasil-EUA, é improvável que os produtos de aço importados pelo Brasil oriundos da China estejam sendo utilizados na reexportação aos EUA, conforme possibilidade aventada pela Ordem Executiva [governo Trump]”, afirmou a Amcham.
Alerta feito antes da eleição
Mas a sombra chinesa, de fato, tem permeado as conversas. Antes mesmo da eleição nos EUA, uma equipe do governo brasileiro se reuniu com aliados e com a base de Trump. O recado ali foi claro: Washington estava preocupado com o aumento da presença chinesa no Brasil e na América Latina.
O fluxo comercial não seria um problema, mas amplos investimentos em infraestrutura não eram aceitáveis, principalmente em portos e outros setores com o potencial de ter um uso geoestratégico. Um dos exemplos dados era o porto de Chancay, no Peru, e que recentemente passou a ser uma das apostas da China na América Latina.
Nos encontros, o Brasil argumentava que, apesar da preocupação norte-americana, a realidade era que os EUA não ofereciam alternativas diante da ausência de planos de investimentos ou ajuda.
Ainda que o alerta sobre a China tenha feito parte também do diálogo entre os governos Lula (PT) e Biden, a percepção neste momento é que a resposta poderá vir com força e prejuízos ao país.
De fato, um dos temores do setor privado é de que as tarifas sejam usadas pelos norte-americanos como instrumento de persuasão, na esperança de forçar um afastamento da China de áreas estratégicas no Brasil.
Também pesa para os norte-americanos a manutenção dos planos do Itamaraty de colocar a desdolarização como um dos itens da agenda do Brics. Para a Casa Branca, esse é um tema de especial interesse da China, reduzindo o papel da moeda dos EUA no comércio.
Na avaliação do governo brasileiro, um teste será o comportamento de Trump ao estruturar sua política comercial. A partir de 2 de abril, o governo norte-americano promete aplicar taxas recíprocas e vem insistindo sobre a “injustiça” que produtos dos EUA sofrem ao entrar no mercado nacional.
Na semana passada, o governo brasileiro conseguiu estabelecer os primeiros contatos de alto escalão com a administração de Donald Trump, justamente para tentar desmontar a ameaça. Em um dos encontros, por videoconferência, o vice-presidente Geraldo Alckmin argumentou com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, que são os norte-americanos quem contam com um superávit na balança com o país, avaliado em US$ 200 bilhões nos últimos dez anos. O argumento brasileiro foi recebido de maneira “morna” pelos EUA.
Um dos principais temas foi a taxa ao etanol, cobrada pelo Brasil. Pressionado domesticamente, Trump quer garantias de que os estados norte-americanos com forte produção de milho sejam beneficiados por sua política comercial. Assim, abrir o mercado brasileiro para o etanol de milho dessas regiões seria uma meta da Casa Branca.
Mas fontes que tiveram acesso ao conteúdo da conversa revelaram à reportagem que, de fato, a questão chinesa foi levantada pelos norte-americanos.
Como praxe, quando a Casa Branca coloca a questão chinesa na agenda, o governo Lula explica que o país tem uma relação “madura e estratégica” com a China há décadas, que o asiáticos são os maiores parceiros comerciais desde 2009, e que Brasília não vê contradição entre a relação do Brasil com a China e a relação com os EUA.
Na sexta-feira (7), foi a vez de o chanceler Mauro Vieira manter uma reunião por telefone com o novo representante de Comércio da Casa Branca, Jamieson Greer. A reunião, porém, foi descrita com “burocrática”, na qual cada um dos lados apenas apresentou sua agenda de interesses na relação bilateral. Ou seja, com pouco espaço para negociar uma mudança na postura de ameaça dos EUA.
Nesta semana, o setor privado brasileiro usará ainda os canais oficiais abertos pelo governo Trump para apresentar seus argumentos sobre a reciprocidade nas tarifas. Assim como o governo, o setor vai insistir sobre o fato de que a taxa média cobrada pelo Brasil aos produtos norte-americanos é de apenas 2,7% e que alguns dos principais itens do fluxo bilateral estão isentos de taxas.
Mas, para negociadores, o temor é que nenhum desses argumentos seja suficiente diante da insistência da Casa Branca em afastar a China do Brasil.
Uol